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▪ Encontro de paz com Paulo Aido, o jornalista e escritor que foi candidato em Odivelas e acaba de lançar dois livros: “As mais belas orações” e Mentira de Saramago”.
Paulo Aido acaba de lançar dois livros, «As mais belas orações» e a «Mentira de Saramago». Fê-lo por razões diferentes certamente. Fê-lo por convicções fortes. Fê-lo pelo seu cristianismo declarado. Fê-lo por acreditar na instituição família e no trabalho. Fê-lo por acreditar que se pode trabalhar em prol de terceiros. Mas escreveu estes dois livros com estados de alma bem distintos. Paulo Aido mostrou ser um homem de coração grande e insistente nas grandes causas, como Marcelo Rebelo de Sousa faz questão de afirmar. Isso mesmo se viu na campanha para as Autárquicas em Odivelas, onde acabou por perder à tangente. Mas também acabou por ser grande ao aceitar ficar do lado de fora da porta nas negociações para o executivo Municipal, tão-só porque o PSD de Odivelas se esqueceu dos seus candidatos independentes, Hernâni Carvalho, o líder, e Paulo Aido o quarto da lista.
A coligação «Em Odivelas primeiro as pessoas» obteve quatro mandatos. O PSD optou por ficar com dois «tachos», enquanto os independentes ficaram sem pelouro. O futuro dirá o que os odivelenses pensam de uns e de outros e, afinal porque quiseram votar na coligação, oferecendo uma expressiva votação que até então o PSD nunca tinha registado no concelho. Mas vamos à literatura. "As mais belas orações" são como que uma espécie de denominador comum entre religiões que abordam relações variadas do ser humano com a espiritualidade num seu todo, com todos os deuses que são o mesmo Deus de todos nós.

Festa - Será assim mesmo? Paulo Aido - De certa forma, sim. Quando falamos de Deus, falamos apenas no mesmo Deus. Dizemo-lo por palavras distintas, invocamos maneiras diferentes de orar, cerimónias que se aproximam umas vezes, que são tão distantes noutras, mas há sempre esse denominador comum: a paz e o amor. E todas as principais tradições religiosas falam de um mesmo amor: o amor ao próximo. Não se trata de uma relação egoísta mas altruísta. Amar o próximo é a medida de todas as religiões. Se possível, dizem-nos elas, ama até o teu inimigo, mas, se não puderes fazê-lo, pelo menos evita fazer-lhe mal. As religiões dizem para nos abstermos de fazer o mal e incentivam-nos a fazermos o bem. A sermos militantes da paz e do amor. Mas atenção: defender a paz e o amor ao próximo não é ser-se ingénuo. É uma atitude de vida.
A oração é sempre um momento de verdade.
RF - Não lhe parece quase impossível fazer-nos acreditar uns nos outros? Não estaremos perante um Paulo Aido missionário? PA - Missionário?! Acho que não. Não tenho essa virtude. Militante da causa da paz, isso sim. E espero continuar a sê-lo até ao fim. Acima de tudo, acredito na cidadania. Todos temos o dever de ajudar a fazer uma sociedade melhor. Em casa, na família, no prédio onde moramos, no trabalho, na escola, em todo o lado. E este é um bom princípio. Há quem se junte para fazer uma sociedade melhor em partidos políticos, há quem participe em movimentos de cidadania, há quem escreva em blogues, há quem se ofereça como voluntário em tantas e tantas instituições... Há muita coisa a fazer. Eu não sou missionário mas acredito que todos temos o dever de ajudar a melhorar o mundo usando o nosso metro quadrado de influência.
RF - Porque é que entende que as pessoas que rezam são as melhores ou fazem parte das melhores? Não achaa que muitos dos que rezam é porque são suficientemente egoístas para não se sentiram bem consigo próprios? PA - Eu não disse que as pessoas que rezam são as "melhores". Disse que as pessoas que rezam ficam melhor, tornam-se melhores pessoas, porque se confrontam no seu íntimo, em verdade, sem subterfúgios, com aquilo que são. Penso que as pessoas que rezam tendem a crescer, em oferecer-se em verdade. Rezar é meditar. E até podemos rezar em silêncio - o que recomendo -, mas não faz sentido rezar sobre uma mentira. Qualquer pessoa pode mentir numa conversa, mas não faz sentido mentir numa oração. Para quem acredita, Deus tudo sabe. A mentira não tem cabimento. Assim, a oração é sempre um momento de verdade, de purga interior, de crescimento. E isso é, seguramente, um alimento que ajuda as pessoas a serem melhores.
Fiquei de fora do governo da Câmara, mas, mesmo sem pelouro, vou continuar a intervir. Afinal, há muita forma de fazermos política, de intervirmos e de sermos úteis
RF - Paulo Aido desculpe-me esta franqueza de jornalista para jornalista, mas acima de tudo de companheiro para companheiro na luta pelas eleições autárquicas onde estivemos juntos... Eu testemunhei Paulo Aido a olhar com ternura para as pessoas, prometer-lhes coisas simples que algumas delas anseiam há dezenas de anos e pouco ou nada custam a não ser uns tostões e elevada dose de boa vontade. Mas vi no seio dos seus (nossos) apoiantes quem não o tivesse no coração, quem quiçá lhe desejasse a derrota. Falamos de Odivelas. Acredita que é possível virar o mudo do avesso - fazer perceber a palavra ternura a todos? PA - Acredito que é possível. Tenho sincera pena de não termos ganho as eleições, pois o nosso programa iria fazer a diferença. Mas, mais do que aquilo que estava inscrito no programa, era a nossa vontade em fazer. Fazer pelos outros, lá está. Claro que tenho uma enorme expectativa que os dois vereadores - Carlos Bodião e Sandra Pereira - eleitos na lista da Coligação liderada por Hernâni Carvalho, procurem dar agora o seu melhor para implementar o programa por que andaram a lutar e a defender durante a campanha eleitoral. Eu não compreenderia, nem nenhum eleitor, que eles não cumpram escrupulosamente aquilo que defenderam. Foram eleitos com um programa, vão agora fazer o quê? Deve ter sido por isso, para terem a oportunidade de cumprir aquilo que era o programa eleitoral da coligação que os elegeu, que aceitaram os pelouros oferecidos pelo Partido Socialista. Quanto a mim, quando aceitei o desafio do meu amigo Hernâni Carvalho para assumir um lugar nas listas, percebi que havia ali um pequeno espaço para intervir - para o meu metro quadrado de influência. Fiquei de fora do governo da câmara, mas, mesmo sem pelouro, vou continuar a intervir. Afinal, há muita forma de fazermos política, de intervirmos e de sermos úteis.
É possível deixarmos a nossa impressão digital no mundo. As guerras religiosas são conflitos de intolerância e de ignorância.
RF - Na apresentação, Paulo Aido disse com enorme convicção que escrever este livro foi para «ajudar a que cada um de nós possa ser melhor pessoa e assim tornar o mundo melhor». Essa sua convicção tem final de linha? PA - É isso que estou a dizer. Temos de nos alimentar de alguma coisa. É possível deixarmos a nossa impressão digital no mundo. Mesmo que seja só no prédio onde vivemos, ou na rua onde habitamos. Pode ser só aí. Ninguém tem de mudar o mundo de avesso. Se eu acho que é possível levar isso até ao fim? Acho que sim. Os sonhos passam de geração em geração. Temos é o dever de os levar por diante.
RF - "As mais belas orações" reflectem, de certo modo, a sua vida profissional e mesmo a mais íntima? PA - O livro é uma simples tentativa de mostrar às pessoas que as religiões têm muito mais que as aproxime do que as afaste e que é possível - e salutar - olharmos para as reli-giões dos outros com simpatia, com ternura, como dizia há pouco, mas com respeito, sempre. As guerras religiosas são conflitos de intole-rância e de ignorância. Se este livro nos ajudar a olhar para os outros com mais tolerância, já valeu a pena.
RF - Acredita na dis-tinção entre boas pessoas e pessoas boas? Acha que o globo pode dar uma verdadeira cam-balhota socio-económica se houver determina-ção e grandioso espírito de missão? PA - Acredito que uma boa pessoa não é neces-sariamente ingénua. E acredito que com um grandioso espírito de missão podemos mudar tudo: a nós pró-prios, dando sentido à nossa vida; à nossa família; ao nosso mundo, se nunca abdicarmos de que todos temos um metro quadrado de influência que não deve ficar nunca na gaveta.
A Igreja não é um monumento, um edifício bordado a ouro. A Igreja somos nós.
RF - Sem pretender entrar na sua intimidade até porque sei que detesta publicitar o bem que gosta de fazer. Paulo Aido gostava de ser um missionário universal? Essa foi a razão que o levou a contrapor as afirmações recentemente produzidas por José Saramago com a publicação do titulo "A mentira de Saramago"? PA - Não gosto de falar disto, porque tudo isto deve ficar na sua própria sombra, mas abro aqui uma excepção e digo que, durante alguns anos, fui voluntário activo das equipas de rua da Comunidade Vida e Paz, que apoia os sem-abrigo em Lisboa. Com outros, distribui comida, roupa e, acima de tudo, tentei levar uma mensagem de esperança aos que já perderam tudo: a casa, o emprego, a família e, tantas vezes, o amor próprio. Para mim, isto é ser militante da causa da paz, é ajudar a fazer um mundo melhor. Não fiz muito, mas em todas as noites em que fiz a "volta", como lhe chamamos, senti-me muito bem, senti-me uma pessoa melhor. E isto que fiz não foi nada. Esta comunidade foi fundada no seio do Patriarcado de Lisboa. Há dezenas, centenas de exemplos destes. Tanto trabalho de tantas pessoas - e gratuito - em prol dos outros! A Igreja não é um monumento, um edifício bordado a ouro. A igreja somos nós. Cada crente é um templo sagrado, se quisermos. Quando Saramago vem dizer que a Bíblia é um "manual de maus costumes" quando fala no cinismo do Papa ou da Igreja, não posso deixar calar a minha indignação. Ele diz que a Igreja é "reaccionária" e "insolente". Ou não vê ou não quer ver. Mesmo que não tenha uma pinga de fé, não entendo como é que Saramago ostensivamente pretende ignorá-la. Eu imagino como seria Portugal sem o trabalho militante, silencioso, diário e voluntário de milhares de pessoas que, através da Igreja, se oferecem para minorar o sofrimento dos outros. Imagino... O Deus dos cristãos, que tanto enfurece Saramago, foi um homem bondoso, doou-se pela humanidade e até morreu torturado na cruz. Não percebo o azedume do Prémio Nobel perante tanta grandeza...
...quem medita, quem reza, tende a tornar-se numa pessoa melhor. Se calhar, falta a Saramago alguma oração...
RF - A Bíblia só tem 30 histórias que refutam as teorias de Saramago. Ou estas são as mais evidentes? PA - Nem são bem histórias, nem são só trinta, claro! São textos, passagens da Bíblia, que dizem o contrário do que Saramago afirmou publicamente. Escolhi estes textos, poderiam ter sido outros. Nós podemos olhar para a Bíblia e não vermos. Espero que este livro ajude a ver melhor a Bíblia. E, já agora, até agradeço ao Nobel da Literatura ter provocado esta polémica. Agora fala-se mais da Bíblia e quem ler o meu livro terá mais uns textos sagrados que o ajudarão a meditar. E, como disse há pouco, quem medita, quem reza, tende a tornar-se numa pessoa melhor. Se calhar, falta a Saramago alguma oração... |