Nas últimas semanas ouvi recorrentemente, quer em conversas com amigos quer em contexto de consulta, alguns comentários sobre a relação das redes sociais com a beleza. E perante isto, o primeiro pensamento que me ocorreu foi de que, sem dúvida, a cultura vai-nos disponibilizando um sem número de ferramentas que nos permitem inúmeras novidades, as quais eram inexistentes ou inacessíveis no passado.
Na primeira reflexão do ano não podia fugir ao assunto dominante: crise/economia! Mas numa perspectiva diferente...
Nos dias de hoje falasse muito no impacto das dificuldades financeiras sobre o funcionamento do casal até porque vivemos num processo de crise internacional (é o que dizem...). Para agravar, o governo em vez de mostrar capacidade para propor estratégias inteligentes apenas corta cada vez mais. Assim sendo, a única maneira que sabe usar para governar é sobrecarregar os contribuintes.
Neste cenário, ouve-se que as dificuldades financeiras levam a uma tensão maior entre o casal e pode levar à ruptura. Tal raciocínio é falso! É uma ilusão! Sem dúvida que não podemos negar a influência deste momento económico na vida dos casais, mas não no sentido da ruptura.
À Luz da Psicologia
Estamos no final de Julho e ouve-se com muita frequência, aqui e ali, que as férias estão à porta. No dicionário as férias surgem como o "tempo durante o qual não funcionam aulas, tribunais..." ou até "interrupção relativamente longa de trabalho, destinada ao descanso dos trabalhadores em geral".
Mas as férias representam muito mais.
Por exemplo, menos trânsito para quem circula pela cidade de Lisboa, maior facilidade em arranjar estacionamento na rua onde mora, ou até mesmo, momento de alívio pelo subsídio recebido por algumas famílias, permitindo algum desafogo durante o mês ou o regularizar de algumas dívidas.
Contudo, as férias exigem ginásticas familiares por força da interrupção escolar dos mais novos. Alguns pais optam por colocar os filhos em casa dos avós ou outros familiares nas aldeias onde nasceram de modo a poderem trabalhar descansados. Para algumas crianças é motivo de alegria porque irão reencontrar antigos amigos, incluindo emigrantes. Para outras crianças é motivo de "seca" porque dizem não fazer nada dispensando a companhia das pessoas com mais idade.
Tempo de férias é também período de algumas crianças voltarem a reencontrar, principalmente, o pai do qual passam o ano afastados por força do divórcio dos progenitores, das aulas e das centenas de quilómetros que os separam. Apesar das consequências que daí resultam... Estudos sobre pais divorciados indicam que numa percentagem significativa de casos um deles acaba por perder a ligação emocional com o filho se não existirem contactos frequentes (merece reflexão!).
Nas férias são muitas as crianças a ficar sozinhas em casa o dia todo devido à indisponibilidade dos pais para arranjarem plano alternativo ou pelo comodismo de se deslocarem até a uma Junta de Freguesia para se informarem das actividades disponíveis. Os pais deixam-nas trancadas em casa com receio de que elas saíam. Desta forma, passam o dia a ver televisão ou frente a uma consola (quando a têm!). E aqui vem à minha mente o seguinte: será que estes pais sabem que o cérebro humano se estrutura adentro de uma relação?
No outro extremo temos as crianças que foram deixadas o dia inteiro fora de casa, ficando mais vulneráveis às possíveis ofertas que possam surgir, tome-se como exemplo adolescentes mais velhos com outro "andamento".
Pelos vistos o significado de férias é mais complexo do que aquilo que aparece no dicionário. Faço votos para que as férias de cada leitor sejam revitalizantes!
- Apenas vivemos juntos, não se passa mais nada;
- Não sente preocupação pelos meus sentimentos;
- Não tem medo de me perder, sou um objecto dado por adquirido;
- Não sente compaixão pela minha frustração;
- Não se activa para a relação funcionar, tenho que ser sempre eu a fazer alguma coisa.
Ou se o leitor preferir, até nos podemos interrogar: "será que notam que do outro lado (na mesma casa, na mesma cama, etc.) há gente?".
Semelhantemente com o que tenho procurado fazer com as outras reflexões, a desta semana é sobre um tema recorrente em psicoterapia e no qual as pessoas se prendem sem perceber o obstáculo que o mesmo representa na caminhada para o bem-estar.
Falo de relações duplas e da passividade que muitas vezes lhe está associada.
A ideia de que "quem espera, sempre alcança" é exemplo disso mesmo. Pelo menos no que diz respeito aos relacionamentos amorosos.