REN e O2 preparavam negócio de 5 anos
Foi pelo buraco da fechadura que tantos de nós quando éramos miúdos espreitávamos o que não devíamos. É assim há séculos. E foi assim que ganhámos o bichinho da investigação, uns mais e outros menos.
Foi pelo buraco da fechadura que começaram os primeiros passos da investigação policial e jornalística. E se não fossem as fechaduras terem buracos ou as portas ficarem entre abertas não teríamos parte das histórias boas e más e imagens que fazem as delícias ou horrores de todos nós. É exactamente a curiosidade que leva à descoberta. As escutas são mais recentes. Datam do final da 1ª Grande Guerra. Mas valeram aos Aliados na II Guerra Mundial por intercepção das comunicações dos alemães. A espionagem alicerçou-se nas escutas e, hoje, validam muitos casos judiciais nos países ocidentais ainda que hoje existam meios de investigação suportados pela tecnologia de ponta. Em Portugal não servem para nada, sobretudo se envolverem gente importante porque quase sempre não têm relevância jurídica ou seja, em termos simplistas, não servem de prova e, portanto nunca serão utilizadas nos tribunais em quaisquer processos. No caso Face Oculta, as escutas de conversas telefónicas que envolvem o poder instituído sobre o eventual controlo de alguns meios de comunicação social não tiveram relevância jurídica e foram mandadas deitar ao lixo. A determinação foi mandada pelo Presidente do Supremo Tribunal de Justiça e pelo Procurador-Geral da República. Para o Juiz de Aveiro a relevância é outra e vai daí o País viu transcritas conversas gravíssimas sobre o assunto e o envolvimento de destacadas figuras do meio empresarial e político, mesmo referências ao primeiro-ministro. E por estranho que pareça não ouvimos José Sócrates desmentir o conteúdo das mesmas por um momento que fosse. Disse tratarem-se de conversas particulares pelo simples facto de não lhes terem sido dada relevância jurídica. Ora pois claro, quem é que neste País ousaria questionar um primeiro-ministro ou levá-lo à barra do Tribunal? Não é a democracia que está em causa, mas antes o sistema que dela se suporta. Todos os que lideram o Regime. Face Oculta poderá ser das últimas gotas a fazer transbordar o copo de um regime vazio de credibilidade a necessitar de ressurgir e de ser valentemente sacudido. Ninguém acredita em ninguém. Quem manda na Justiça fraqueja às mãos do poder. A Justiça mostra-nos o seu corporativismo, mesmo o seu lado obscuro inacessível e impiedosa com os mais desprotegidos ou mesmo com o comum dos mortais... Percebemos a importância do Estado ser accionista de algumas grandes empresas nacionais que detestam concorrência. Se olharmos para trás, entendemos agora a cruzada contra Belmiro de Azevedo aquando da tentativa de aquisição da maior parte do capital da PT. Obviamente que com aquele empresário na liderança da Portugal Telecom, o governo não tinha margem de manobra para poder influenciar os negócios daquela empresa de telecomunicações.
Grandes negócios
Mas vejamos alguns detalhes ainda por explicar no caso Face Oculta: Como é que Manuel Godinho proprietário da O2 entra no círculo de Armando Vara? Como é que aparece mais tarde o nome de José Penedos, recentemente afastado da presidência da REN, ligado ao empresário da sucata? É ou não estranha a coincidência do filho Paulo Penedos ter sido advogado de Manuel Godinho? Não menos curiosa é a detenção do patrão da O2 poucos dias antes da reunião do Conselho de Administração da REN, onde se preparava a apresentação da proposta para o negócio com a empresa de Manuel Godinho, que visava a substituição de parte importante rede nacional de alta tensão, num processo a realizar em 5 anos. Aliás, na REN foi recentemente realizada uma auditoria que acabaria por ser enviada à Procuradoria-Geral da República, por indícios de práticas menos éticas entre a O2 e a empresa de distribuição de energias. Desconhece-se o decurso de qualquer investigação na sequência desse documento.
Manuel Godinho entra no circulo de relações de Armando Vara à época do governo de António Guterres pela mão do então secretário de Estado das Obras Públicas, Crisóstomo Teixeira. Foi nesse período que o empresário participou no consórcio que ganhou a remodelação da linha ferroviária do Norte, Lisboa-Porto, então liderado por uma empresa que pertenceu ao Grupo Melo e dirigida pelo comendador Fernando Lopes Barreira, ex-director geral dos estaleiros navais da Setenave. A partir de então, Manuel Godinho ficou ligado a Armando Vara e Lopes Barreira, mantendo relações privilegiadas com um grupo de gestores que, por coincidência ou não, têm um denominador comum - são todos naturais ou descendem de famílias de localidades próximas em Trás-os-Montes. |