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Escrito por José Maria Pignatelli
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Quarta, 03 Fevereiro 2010 11:00 |
Temos dificuldade em pensar por nós próprios. Também temos imenso embaraço em olhar em nosso redor. Não queremos nem sabemos avaliar a comunidade. Estamos perfeitamente certos de que as coisas menos boas estão só reservadas aos outros. Acautelar o futuro, mesmo a curto prazo, está completamente fora de questão para a maioria dos portugueses.
Imaginemo-nos que num ápice podemos ficar às escuras, respirar um ar rarefeito escasso e sentirmo-nos empoeirados. Segundos antes estávamos sentados na nossa secretária diante do computador ou em casa sentados à mesa a tomar uma refeição em família ou simplesmente sobre o sofá especados diante do televisor. Imaginemo-nos mergulhados num silêncio profundo sob a pressão e o peso do betão quase embrulhados em pedaços das nossas mobílias. Perceber que não temos ninguém que nos estique a mão. Perceber que não nos podemos preocupar com os nossos. Perceber que podemos ter perdido tudo, mesmo tudo ali, naquela ápice de tempo. Pressentir que os nossos podem estar lá fora à nossa procura, mas que o nosso grito não chega a lado nenhum. Os haitianos passam por isto há semanas. Os californianos estiveram à beira de um desastre sísmico há 15 dias - mais de 6 na escala do sismólogo Richter - mas valeu-lhes a tecnologia de construção e o facto de estarem no Estados Unidos onde se exige rigor, porque quem não cumpre é severamente condenado. E nós, dias antes, sentimos os arrufos de um abalo com epicentro distante, a sudoeste de Sagres, que marcou pouco mais de 5 na escala de Richter.
E se os Deuses tivessem baralhado as cartas ao contrário
E se as cartas do jogo tivessem sido baralhadas ao contrário. Se o que sucedeu no Haiti tivesse acontecido aqui perto da metrópole lisboeta como estaríamos nós? O que seria das nossas cidades? Como teria reagido a nossa protecção civil, partindo do pressuposto que nas cidades e nos concelhos que constituem a metrópole da grande Lisboa ela existe e que todas as instituições que a compõe não tinham ruído? Quem estaria no terreno? Quem teria a capacidade organizativa e dirigiria as operações? E quem sabe quais são os pontos críticos? Haverá alguém que os saiba? Teremos apenas identificados aqueles que a nossa sensibilidade nos revela como os mais frágeis, as zonas mais antigas, construções clandestinas com muitos anos e edificadas sem projecto... Ou alguém tem a percepção que um desastre destes poderia abalar seriamente outras construções bem mais modernas que mostram à evidência estarem construídas em locais quase proibidos, sobre aterros e junto a linhas de água e a leito de cheias? Pois é sobre isto mesmo que devíamos pensar e por nós próprios. Saber o que nos poderá suceder a nós, aos nossos e aos outros que vivem connosco no mesmo espaço urbano, na mesma comunidade que podiam e deviam falar a uma só voz, nesta e noutras matérias que respeitam à protecção civil. Devemos recordar que o simulacro que foi feito recentemente em Lisboa mostrou o colapso do sistema. Que também nós precisaríamos de ajuda externa. E num caso de extrema complexidade teremos porventura de ser auxiliados na gestão da crise e na organização dos meios operacionais de salvamento no terreno. Levaremos vantagem de estarmos no continente europeu, muito mais perto de uma ajuda internacional eficaz do que por exemplo o Haiti ou no passado recente na Turquia ou nos países do Sul da Ásia aquando do tsunami de há quatro anos. Era de extrema importância conhecer a Protecção Civil das nossas cidades e dos nossos concelhos. Conhecer os corredores de evacuação das zonas mais vulneráveis, os corredores de circulação da ajuda humanitária, os locais adequados aos acampamentos, à instalação dos primeiros socorros e hospitais de campanha, a coordenação da segurança de pessoas e bens. Mas será que existem estes projectos e uma coordenação nacional da Protecção Civil capaz de suportar um embate de tão elevado calibre? É melhor pedir aos nossos Deuses que nos protejam destes acontecimentos. |
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Actualizado em Quarta, 03 Fevereiro 2010 13:19 |